Blog da Capricórnio

Postado em 23/11/2018
Tags: ronaldo silvestre, befw 2018, alfaiataria, alta costura, Tecendo Itapira, Futurarte, moda brasileira, moda sustentável

Alfaiataria poética de Ronaldo Silvestre e o denim Capricórnio

Ele extrai do denim, mais do que peças de roupa, mas obras de arte.

Da própria memória, colhe mais do que lembranças, inspira-se. Esse é o processo do designer Ronaldo Silvestre que, como está bem explicado sua Fan Page, trabalha com Alfaiataria Poética.

Com o coração preenchido por recordações da mãe, costureira que recriava peças em jeans, a partir daquilo que recebia, Ronaldo aposta todos os seus sonhos na técnica que desenvolveu com o viés em denim, retecido sobre o próprio jeans, seda e tule illusion. E a cada temporada, surgem possibilidades mais surpreendentes e elaboradas, que são desfiladas pelo Brasil.

O denim, da Capricórnio Têxtil, novamente foi a matéria-prima-chave, das criações que estrearam na passarela da Brasil Eco Fashion Week, no dia 15 de novembro, e também estarão no catwalk do Brasília Trends, neste final de semana. 

Num bate-papo com o Blog da Capricórnio, Ronaldo falou sobre as escolhas de tecidos para a nova Coleção e também, sobre os projetos em que atua:

BC: Ronaldo, como foi o processo de escolha dos tecidos para a confecção das novas peças?

RS: A escolha se baseou na textura, na composição dos artigos e no peso de cada um para criar o "efeito passarela" que eu desejava. Minha ideia foi desenvolver roupas atemporais, à prova de modismos, e longe de configurarem como básicas. Quis trazer peças coringa, que se modificam a cada sobreprosição, multiplicando as possibilidades de look, mesmo com poucos itens no armário. A tshirt sobre uma cacharrel, por exemplo, ganha um visual novo. Sobre um vestido, se reinventa mais uma vez, e por aí vai.  Proporcionar novas combinações para uma mesma peça, também é um aspecto da sustentabilidade, assim como a utilização dos tecidos sem efeitos de lavanderia, no estado cru. 

 

BC: E quais foram as suas escolhas?

RS: Trabalhei com o Caraiva, por conta do toque interessante e também pela composição que inclui elastano, trazendo maior flexibilidade ao viés retecido. Seguindo essa linha de flexibilidade, optei também pelo Corumbau. Composto de algodão, poliéster e elastano, esse artigo deixou as peças mais leves, acompanhando os movimentos do corpo, o que se traduz em conforto. Já o Adonis, de estrutura mais pesada, usei para algumas bases e o Fênix, um 100% algodão, foi trabalhado nos desfiados que aparecem principalmente em acessórios. Ao ser lavado, esse tecido ganha uma textura peletizada, que é muito interessante. O Thot, o mais leve de todos, foi muito utilizado no viés, trazendo maior fluidez.

 

BC: Você é adepto da transformação do denim em peça principal de um look, trazendo sempre soluções inovadoras em design e em processos artesanais. Qual é a importâcia da parceria com a Capricórnio Têxtil?

RS: É de extrema importância. Graças a essa parceria, a Capricórnio e eu podemos experenciar um laboratório de desenvolvimento de peças que produz muito mais do que roupas de valor comercial, mas que carregam em si também, um valor emocional muito grande. Esse valor emocional está presente em cada trabalho, seja pelas minhas referências para o design, seja no impacto positivo gerado na vida de várias mulheres do Projeto Tecendo Itabira, sob minha coordenação. Atualmente, 20 mulheres da comunidade de Itabira foram qualificadas profissionalmente como costureiras e são elas as artistas por trás dos looks femininos e masculinos das Coleções. Para o próximo ano, queremos qualificar para o ofício, mais 160 mulheres, que aprenderão uma profissão, poderão gerar renda e ampliarão o olhar para  moda. Nessa fase, deveremos ampliar nosso alcance, incluindo 20 esposas e mães de detentos de Itabira e região, que integram o Projeto Costurando Vidas, uma iniciativa da Dra. Giuliana Talamoni, Promotora da Comarca de Itabira. Essas mulheres, muitas delas costureiras e crocheteiras são alvo de preconceito social, devido à situação prisional dos filhos. 

BC: Para essa Coleção do BEFW, você também contou com a participação de uma outra entidade com trabalho voltado à área social, certo?

RS: Sim, contamos com o trabalho da Futurarte, de Betim (MG), que integra o Instituto Ramacrisna. O projeto trabalha com mulheres em situação de vulnerabilidade social e o objetivo é preservar as técnicas artesanais locais, de forma a garantir a sustentabilidade das comunidades rurais da cidade. Essas mulheres foram as responsáveis pela produção das bolsas do desfile e pelos brindes. Acredito na terceirização e no trabalho artesanal de pequenos produtores como a solução para o fortalecimento econômico das comunidades, sem falar na importância do empoderamento dessas mulheres, gerando mais qualidade de vida para elas e para as respectivas famílias.

 

Fotos: Divulgação BEFW